Vínculos afetivos na modernidade diante do excesso de opções nos relacionamentos
Comportamento & Mente

Vínculos afetivos na modernidade e excesso de opções

Já é fato que os vínculos sociais e afetivos da nossa sociedade moderna são atravessados pelos aplicativos e redes sociais, como WhatsApp, Instagram, DM, X, Threads, TikTok, Tinder e tantas outras plataformas que possibilitam e facilitam conexões entre pessoas. Tudo está exposto e acessível, como em um catálogo ou vitrine. E, ainda assim, continuamos emocionalmente insatisfeitos.

A lógica do catálogo

Tantas possibilidades de conexão vêm gerando excesso de opções, sensação constante de que existe alguém melhor, facilidade de substituição e uma comparação infinita entre pessoas. Tudo isso vem nos deixando cada vez mais perdidos na arte de se relacionar na modernidade.

A lógica de um catálogo com excesso de opções é cruel. Basta lembrar de alguma vez em que você foi a um restaurante com um cardápio enorme e ficou completamente perdido na hora de escolher um prato.

A questão central é que, quanto mais possibilidades aparecem, menor parece ser a nossa tolerância às imperfeições naturais do vínculo.

O início de qualquer relação costuma ser altamente estimulante. A novidade gera excitação: o foguinho no story, a conversa nova, o novo match. Tudo isso produz validação rápida e pode deixar alguém preso em um flerte infinito, vivendo da dopamina dos likes e das novas possibilidades.

Esse movimento acaba deixando pouca energia disponível para o trabalho emocional da continuidade.

Mas talvez estejamos precisando olhar mais fundo. Talvez o excesso de opções não seja a raiz do problema. Talvez ele apenas revele algo mais profundo: nossa crescente dificuldade de sustentar intimidade emocional.

A dificuldade de sustentar profundidade emocional

No livro Sob a Sombra de Saturno, o analista junguiano James Hollis fala sobre homens emocionalmente desconectados. Muitos homens foram ensinados, desde cedo, a não sentir, não depender, não pedir ajuda e não se vulnerabilizar. Ou seja: chegam à vida adulta profundamente desconectados da própria interioridade e do próprio sentir.

E isso afeta diretamente a capacidade de intimidade, permanência e elaboração emocional. Porque não temos como dar profundidade a um vínculo se não sustentamos profundidade dentro de nós mesmos.

Mas isso não é apenas sobre homens. À medida que as mulheres foram ocupando novos espaços sociais, muitas também passaram a funcionar dentro dessa lógica inconsciente. Mulheres que acreditam que precisam dar conta de tudo, sustentar sozinhas o lado afetivo da relação, evitar precisar do outro, performar desapego e viver em estado constante de defesa.

Ou seja: homens e mulheres buscando conexão, mas cada vez menos disponíveis para vulnerabilidade, frustração, desconforto e para a lentidão que a construção de intimidade exige.

James Hollis já falava sobre isso em 1993, quando lançou esse livro. Mas a crise emocional masculina continua tão atual que aparece hoje até mesmo na cultura pop. A série Machos Alfa, da Netflix, usa humor e ironia para retratar homens tentando se adaptar aos novos códigos afetivos e sociais, perdidos entre antigos e novos papéis. A série aborda temas como fragilidade narcísica, masculinidade em transição e dificuldade emocional.

O mais interessante é que ela trata tudo isso com humor, mas existe uma tristeza real por baixo dessa incapacidade de construir profundidade emocional.

A intimidade exige permanência

A profundidade dos vínculos exige um tipo de presença que nossa cultura talvez já não saiba mais sustentar. O excesso de opções não aumentou nossa liberdade afetiva. Em muitos casos, aumentou apenas nossa dificuldade de permanecer.

Vivemos em um tempo de infinitas possibilidades de encontro. Não faltam pessoas querendo se relacionar. O desafio contemporâneo parece ser outro: permanecer tempo suficiente para que alguém deixe de ser fantasia, se torne real e, a partir disso, seja possível construir profundidade.

Talvez o excesso de opções não tenha criado a superficialidade. Talvez apenas tenha revelado o quanto já éramos emocionalmente frágeis diante da intimidade.

Foto: Divulgação / Banco de imagem

A ciência da mente e as motivações que moldam quem somos pela análise de uma psicóloga.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Usamos cookies para melhorar sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.