Dormir não é terapia, mas é terapêutico: O impacto do sono na saúde mental e emocional
Dormir não é terapia, mas é terapêutico: O impacto do sono na saúde mental e emocional.
Quantas vezes você já se sentiu culpada por dormir mais, tirar um cochilo ou dizer “hoje eu só quero descansar”? Vivemos em uma cultura que transformou a produtividade em valor e crucificou o descanso.
Silenciamos o corpo
O corpo sempre dá sinais, mas a mente moderna está cada vez mais desconectada da sua biologia natural. Silenciamos sintomas com remédios e abafamos o desconforto.
Mal-estar, fadiga, dor de cabeça, tontura, cansaço, tudo isso tem sido tratado com uma normalidade perigosa. Mas sentir dor e exaustão não é normal. É comum, o que é bem diferente. O normal é sentir-se bem. Nosso corpo é uma orquestra biológica de altíssima inteligência, feita para funcionar em harmonia. Por que, então, aceitar como “normal” viver em desequilíbrio?
Escute os sintomas
Cada sintoma do corpo é uma mensagem e não um incômodo a ser silenciado. Dormir bem faz parte das necessidades humanas básicas para o bom funcionamento físico e mental. É um ato de autorrespeito e também de cuidado com a saúde emocional.
Durante o sono, o cérebro reorganiza informações, processa emoções e consolida experiências. Segundo a neurociência, na fase REM (a fase dos sonhos), ocorre uma verdadeira limpeza emocional: o sistema límbico (responsável pelas emoções) se comunica com o córtex pré-frontal, ajudando o cérebro a “digerir” o que vivemos. Nesse momento, o corpo regula os níveis de cortisol (hormônio do estresse) e reforça neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, fundamentais para o equilíbrio emocional.
E aquele mau humor matinal? Pode não ser “personalidade”, mas desequilíbrio químico. Antes de se rotular, converse com seu médico. Talvez você se surpreenda. Dormir mal significa acordar com o cérebro emocionalmente desorganizado, com mais irritabilidade, ansiedade, dificuldade de empatia. E veja: o dia está só começando, cheio de tarefas, funções e relações para administrar.
Em nossa sociedade, uma boa noite de sono virou luxo. Certamente você já ouviu a frase “Trabalhe enquanto eles dormem”. Deveria vir com um asterisco de alerta, como nos rótulos enganosos: “Trabalhe enquanto eles dormem. *e destrua a sua saúde.”
Afinal, o que é uma boa noite de sono?
O neurocientista Matthew Walker, professor da University of California, Berkeley e autor do livro Why We Sleep: The New Science of Sleep and Dreams, explica os pilares de um sono realmente reparador:
- Quantidade adequada de horas: dormir menos de seis horas por noite prejudica funções cerebrais e de memória, aproximando-se dos efeitos da privação total de sono.
- Qualidade do sono: não basta estar na cama, é essencial equilibrar o sono profundo e o sono REM, fases responsáveis por processar emoções, consolidar memórias e “resetar” o sistema nervoso. Ou seja, o sono precisa ser profundo.
- Regularidade e consistência: Walker destaca que padrões de sono irregulares como dormir muito em um dia e pouco no outro, comprometem o ritmo circadiano e reduzem a eficiência do sono.
- Ambiente e fatores externos: luz intensa, telas, TV ligada, cafeína e temperatura inadequada interferem diretamente na profundidade e continuidade do sono.
Preste atenção aos sinais de desregulação
Na pressa e na urgência produtiva, deixamos passar os alertas que o corpo nos dá. Os sinais de um sono desregulado incluem:
• Dificuldade para pegar no sono ou acordar durante a noite.
• Acordar cansada, irritada, com lapsos de memória.
• Baixa motivação, impulsividade e uso constante de estimulantes (como café e telas) para compensar o cansaço.
O poder silencioso do sono
Dormir é uma forma silenciosa de terapia. Enquanto descansamos, o corpo repara, o cérebro organiza e a alma conversa. Quando aprendemos a descansar de verdade, com constância e consciência, transformamos nossa vida. Não subestime o poder de muitas noites bem dormidas. O descanso é o primeiro passo de qualquer cura.
Sobre a autora
Iana M. Diniz é autora do livro “Quantas vezes você já tentou mudar esse ano?” Neste e em outros textos, ela reflete sobre o papel do corpo e das emoções na construção de uma vida mais consciente, equilibrada e humana.
Foto: Polina



