Amigo secreto ou amigo forçado? O que ninguém fala sobre as confraternizações
As confraternizações de fim de ano escancaram uma falsa boa convivência que muita gente finge sustentar, mas poucos têm coragem de questionar. Este texto revela o que realmente acontece por trás das encenações corporativas que todo mundo conhece, mas quase ninguém admite.
Outro dia, observando a correria no shopping, pessoas com sacolas indo e vindo, percebi quantas vezes participei daquele famoso “amigo secreto da firma” mesmo sem a menor vontade. Não era obrigatório, claro, mas quem já trabalhou em empresa sabe como funciona. A ausência vira pauta, vira olhar torto, vira julgamento. Uma certa vez, cheguei a receber uma pontuação mais baixa na avaliação de desempenho por não ficar até tarde nas festas da empresa, festas que aconteciam fora do horário e do ambiente de trabalho. É o tipo de coisa que diz muito sem precisar dizer nada.
E é aí que começo a me questionar: qual é mesmo o espírito natalino que tentam vender dentro das empresas? Porque o tal do clima de confraternização só aparece quando interessa na foto bonita do RH. Durante o ano inteiro é cada um por si, portas fechadas, competição silenciosa, gente torcendo para ver o outro tropeçar. Mas basta chegar dezembro e, de repente, todo mundo vira amigo, solidário, parceiro. Um milagre corporativo que só dura até o panetone acabar.
A verdade é que essas confraternizações poderiam ser livres e sem cobranças. De que adianta trocar presentes com pessoas que passam o ano querendo puxar seu tapete, que não têm atitude de parceria, que não compartilham nada, que não são solidárias, que não te ajudam em absolutamente nada e que muitas vezes não dão nem bom dia. Aí chega dezembro e, de repente, todo mundo finge que é amigo só porque é Natal. Mas Natal acontece todos os dias, no jeito de tratar o outro, no cuidado, no respeito, na presença verdadeira. Quem não pratica isso o ano inteiro não deveria se sentir autorizado a praticar só no fim dele.
Criei um certo trauma desses amigos forçados. E digo isso sem culpa. Porque hoje vejo muita gente adoecendo no trabalho exatamente por isso, por ser forçada a vestir personagens, a abrir sorrisos que não existem, a participar de rituais corporativos que não fazem sentido, que sugam tempo, energia e até dignidade. Coisas que fogem completamente do escopo, da essência e da verdade de cada um.
Eu continuo preferindo amigos reais. Aqueles que não colocam máscara de gente boa na frente do chefe, mas revelam quem realmente são quando ninguém está olhando. Amigo que sustenta o olhar, não que muda de expressão dependendo da hierarquia. Amigo que te quer bem de janeiro a janeiro, e não só no intervalo da confraternização.
E confesso: se eu ainda fosse CLT, ficaria muito mais feliz se a verba da confraternização fosse convertida em pix, para eu mesma comprar o presente que realmente mereço. Seria mais honesto. Seria mais útil. Seria mais coerente com a vida real.
Papo reto. Prefiro um amigo escancarado a um amigo secreto. E amigo forçado, sinceramente, tô fora.
Foto: Malu Serafini


