Casa com personalidade reúne livros, obras de arte, plantas, móveis de diferentes estilos e objetos pessoais na decoração.
Cultura & Estilo

Casa com personalidade: o fim dos interiores perfeitos?

Durante anos, a casa considerada perfeita nas redes sociais seguiu quase uma fórmula: tons neutros, poucos objetos, móveis semelhantes e ambientes impecavelmente organizados. Agora, arquitetos e moradores começam a olhar em outra direção. A casa com personalidade, marcada por memórias, hábitos e escolhas pessoais, volta a ganhar espaço nos projetos de interiores.

A mudança não significa abandonar estética ou funcionalidade. O que começa a perder força é a ideia de que uma casa bonita precisa seguir o mesmo padrão visual visto em revistas, mostras de decoração, Pinterest e Instagram.

No lugar de ambientes que poderiam pertencer a qualquer pessoa, entram objetos herdados, fotografias, obras de arte, lembranças de viagens, móveis antigos e peças reunidas ao longo da vida.

Quando a casa deixa de parecer uma vitrine

Arquiteto Rodrigo Cassieri em ambiente de arquitetura com escada curva ao fundo.
Para o arquiteto Rodrigo Cassieri, a casa deve revelar características de quem vive nela. Foto: Divulgação

Para o arquiteto Rodrigo Cassieri, uma residência deve revelar características de quem vive nela, em vez de apenas reproduzir referências do momento.

“A casa fica muito mais interessante quando conseguimos reconhecer nela a personalidade do morador. Não acredito que um bom projeto precise parecer uma vitrine ou seguir exatamente aquilo que está sendo visto em todos os lugares”, afirma.

Nesse olhar, até o que antes poderia ser considerado uma imperfeição encontra espaço.

Um móvel antigo restaurado pode conviver com peças atuais. Uma coleção construída ao longo dos anos não precisa desaparecer para que o ambiente pareça organizado. Da mesma forma, um objeto herdado pode ocupar um lugar importante sem combinar perfeitamente com tudo ao redor.

“Quando incorporamos objetos que têm significado para o cliente, o projeto ganha uma camada que nenhuma tendência consegue oferecer: a história. São elementos que despertam lembranças, emoções e pertencimento”, explica Cassieri.

Depois das casas feitas para as redes sociais

A mudança também acompanha um comportamento que ganhou força com as redes sociais. Casas deixaram de ser apenas espaços privados e passaram a aparecer constantemente em fotos e vídeos.

Com isso, determinados estilos se espalharam rapidamente. Cores, móveis, revestimentos e objetos começaram a se repetir em projetos diferentes.

Por outro lado, cresce o interesse por ambientes pensados menos para impressionar quem olha de fora e mais para fazer sentido para quem vive dentro deles.

Nesse processo, o trabalho do arquiteto também muda. Antes de escolher materiais, cores ou mobiliário, é preciso entender a rotina e as referências do morador.

“Antes de pensar apenas em materiais, cores ou mobiliário, é preciso ouvir. Saber como aquela pessoa vive, o que ela guarda, do que gosta, quais são suas referências e quais memórias gostaria de manter por perto. É daí que nasce uma casa verdadeiramente pessoal”, diz Cassieri.

Ter personalidade não significa ter uma casa cheia

Uma casa com personalidade não precisa ser maximalista. Também pode ter poucos móveis, cores neutras e espaços livres.

A diferença está na origem das escolhas.

“A identidade não está na quantidade de objetos. Está na intenção. Às vezes, uma única peça carregada de memória consegue dizer muito mais sobre o morador do que um ambiente inteiro construído apenas para acompanhar uma tendência”, acrescenta o arquiteto.

Isso também abre espaço para misturar épocas e referências sem a obrigação de seguir um estilo do início ao fim. O móvel herdado pode permanecer. A fotografia de família pode sair da gaveta. A peça comprada durante uma viagem pode dividir espaço com um objeto de design atual.

A casa deixa, assim, de obedecer a uma fórmula.

Afinal, a casa perfeita está ficando fora de moda?

Talvez não seja exatamente a beleza ou a organização que estejam perdendo espaço. O que começa a ser questionado é a padronização.

Em uma época em que algoritmos entregam milhares de referências semelhantes e transformam rapidamente determinados estilos em desejo de consumo, fazer escolhas pessoais pode ser justamente o caminho contrário.

Uma casa não precisa parecer pronta para uma fotografia o tempo inteiro. Precisa acompanhar a vida que acontece dentro dela.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja qual tendência vai dominar os interiores nos próximos anos.

É outra: quando você abre a porta de casa, ela poderia pertencer a qualquer pessoa ou conta alguma coisa sobre você?

Avatar photo

Agenda cultural, eventos e roteiros com curadoria independente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Usamos cookies para melhorar sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com nossa Política de Privacidade.